Meu professor de geografia comentou que, na época dele, os professores tinham o direito de castigar os alunos fisicamente ou mesmo “humilhá-los” colocando os criminosos de costas para a sala, olhando para a brancura da parede, em pé, até o fim da aula. Ele reclamou do modo como os alunos praticamente mandam nos professores agora - já que os estudantes não podem mais ser expulsos de um colégio, por exemplo - e exaltou as qualidades intrínsecas do método antigo - afinal, as pessoas apanhavam um pouquinho, mas aprendiam. Disse ele que, depois de ser deixado uma vez de costas pra turma, ficava meses sem “atrapalhar” a aula de ume determinada professora… Pra ele, o que acontece hoje em dia é que se inverteu o senso de hierarquia nas salas de aula.

Não é opinião só dele. Já ouvi algumas vezes que ‘é necessário que as crianças levem algumas surras quando fazem algo de errado’ “pra aprender”. Pensa-se que há muito exagero por parte dos filhos e de alguns pais protecionistas ao reclamarem tanto de umas batidinhas à toa. O moralista Prates aqui da RBS TV (quem é de SC/RS vai saber quem é, talvez) acha o mesmo. Professores do ensino público acham a mesma coisa. Afinal, a situação está tão crítica que muitos deles são ameaçados pelos alunos - e pelos pais, que dão razão aos filhos inconseqüentes.

Pra mim, há algo de muito, muito errado com isso. Há algo de podre nisso tudo.

Eu já escrevi alguns artigos sobre crianças aqui no blog. Eu quero ter filhos. Quero mesmo, por algumas questões filosóficas. O que me incomoda (e instiga ao mesmo tempo) é toda a inconstância e toda a indeterminação que há no que concerne à “criação”, à educação dela. De qualquer forma, um texto mais importante, e diria até fundamental pra compreender tudo o que vou dizer agora é Contra a punição, que publiquei no Pensitivo.

Analisando a questão dos professores, é verdade que há muito exagero sobre os “traumas” causados pelos castigos escolares? Talvez. Mas aí eu argumento da seguinte forma: muitas pessoas exageram sim sobre os tais traumas, mas exageram do ponto de vista clínico. Até onde sei, pouquíssimas pessoas vão parar em consultórios psiquiátricos ou vão parar em hospícios por causa das palmatórias da infância.

Mas se não podemos reclamar do ponto de vista médico, podemos com certeza reclamar do ponto de vista filosófico. Trauma vem do grego, significando “injúria”, “machucado”, “ferida”. Poderíamos chamar de “mancha”? Não sei, mas ferida serve. O que quero dizer é que mesmo quando uma pessoa não chega ao ponto de ser considerada “instável” por causa dos castigos, ainda assim essa atitude marca a personalidade dela, o modo como ela vê o mundo, o modo como este adulto se relaciona com os outros: ela passa a sistematizar o mundo (ainda mais na infância, época em que estamos ainda montando nosso túnel-realidade) da maneira mais primitiva e animalesca do mundo: a dor e a recompensa.

Quando você pune um aluno, a mensagem por detrás da ação é clara: “regras são regras. Você as desrespeitou. Agora você vai sofrer”. Ora, a criança pode conseguir lidar com isso normalmente, mas quando ela crescer ela vai continuar a fazer certas coisas porque é obrigada a fazê-lo, vai continuar a evitar outras coisas porque foge do castigo. Além disso, ela se torna uma pessoa cômoda, porque vê as leis, as regras, como gigantes de pedra que não pode combater, que não tem direito de combater.

A punição é o melhor método pra implantar comodismo nas pessoas. Meu professor de geografia, por exemplo, disse que sofreu mas lidou com isso. Sim, lidou, claro. É um pau mandado da mulher e diz que se você encontrar com um policial, obedeça incondicionalmente. É o seu dever, afinal. Na verdade, ele é assim com quase tudo: deixe pra lá, simplesmente obedeça, não crie confusão. É isso que a palmatória faz com um ser humano.

A punição não torna ninguém melhor. A punição domestica, controla, fere a liberdade. O que torna alguém melhor é a conversa, o diálogo, a confiança. É a negociação, no sentido de fazer entender que a pessoa é importante (e não um pirralho que não tem direito a nada, como acontece em 11 entre 10 famílias que conheço e só deixa a criança de orgulho ferido e ainda mais “bestinha”, metida a adulta), só que tão importante quanto os outros, que também merecem ser ouvidos e respeitados. É a valorização da empatia, mas também da escolha ou da renúncia a ela, e o senso de que não se pode escapar às conseqüências dos atos - o que faz alguém amadurecer.

Isso tudo é substituído porcamente pelo sistema de punição. Um sistema genuinamente animal, uma coisa bovina mesmo, resultado não só de muito da natureza humana “não questionada”, mas também de um sistema de sociedade que nos impõe uma vida de praticidade, uma vida de agilidade e de utilidade. O utilitarismo defende o sistema de punição? Mas é claro! A maior felicidade para o maior número de pessoas, não é lindo? Punindo todo mundo que faz alguma coisa fora da linha, ninguém faz mal pra ninguém, né? Claro, claro. Mas aí nenhum bem verdadeiro poderia ser feito, de qualquer jeito. Seria tudo uma questão de prudência, uma questão de interesse.

Ingressando agora (mais profundamente) em conceitos anarquistas, para o meu professor que disse que o senso de hierarquia se inverteu: mas TODA a hierarquia, de um lado ou de outro, são ruins. Oras, os professores podiam fazer o que quisessem com os alunos, afinal, é pelo bem da aula, pelo bem da “maioria”, pelo bem da moral e dos bons costumes, não é? Pois é… Desculpas. São desculpas esfarrapadas. Permite-se assim que os professores façam o que bem entendam. Isso é completamente despótico. Agora eles estão encurralados; sentem-se acuados pelos direitos perdidos pra manter a ordem.

Mas é estranho, não? Acabo de notar uma coisa: é estranho como todas essas instituições que deveriam servir para o bem estar geral precisam sempre de métodos de controle de hierarquia, como se a qualquer momento eles esperassem que alguém simplesmente quisesse explodir tudo. Mas não é algo bom? Por que alguém seria contra algo intrinsecamente bom?

Se as escolas precisam de hierarquia e os professores reclamam que precisam de meios pra garantir o respeito à hierarquia, é porque a coisa não é tão boa assim e gera rebeldia. É óbvio que a coisa não é boa. Eu sou totalmente contra o sistema educacional brasileiro; TOTALMENTE, por tantos motivos que até sairia do assunto do post se listasse todos.

Quanto à palavra “patriarcado” do título, me refiro às crianças em relação aos pais, não aos professores… Tive idéia pra esse post por dois motivos: o meu professor de geografia e o irmão menor de uma grande amiga minha. Esse irmão é um exemplo clássico do que quero demonstrar. Ele simplesmente não se rende ao que lhe é imposto pela mãe, pelo pai, pela irmã, etc. No carro, a mãe do garoto lhe perguntou “(nome dele), por que tá comendo chiclete? Já não te disse que não podia?”, ao que ele responde “Mas foi a (nome de uma amiga dele) que deu”. “por que é difícil tu me obedecer, hein?”.

Há algo de terrivelmente errado nisso, terrivelmente. Toda a base epistemológica do garoto está errada, cheia de credulidade e confusão. Ele tem muita raiva da irmã dele, principalmente quando ela não deixa ele usar o computador - porque ela estava usando o computador. Ele age como se ela tivesse o dever de dar a vez a ele. Age como se o fato de ela “ter estado ali desde que saiu da mesa no almoço” valesse como algum argumento. O amigo dele falou pra ele que fez uma tatuagem no pé; ele simplesmente acreditou. Acreditou, firmemente, que era uma tatuagem de agulha. Eu perguntei a ele se ele viu; ele disse que sim, “porque tirou o tênis dele (do menino) pra ver”…! Mal sabia ele que pra ser verdadeira a tatuagem tinha que ter papel-filme enrolada em seu entorno. Pobre crédulo; tentando ensinar algo sobre ceticismo pra ele, plantar uma semente de investigação em sua mente, eu falei “É, (nome dele), tem que pensar nessas coisas. Se não qualquer um te engana fácil…”.

E lá vai ele continuar a se achar injustiçado quando o pai dele o pune por mentir ou por não fazer os deveres. Vai continuar achando um saco escovar os dentes porque, não importa quão importante seja, ele faz porque a mãe dele manda. E o pune se não fizer. E ele vai continuar a humilhar amigos mais fracos que ele por diversão. E vai continuar a achar que todo mundo tem o dever de fazer o que ele quiser, que o mundo tem o dever de conspirar a seu favor, e vai continuar a pensar que seu medalhão de santo vai trazer sorte, mesmo porque, em suas palavras, “eu tirei no par ou impar com meu amigo e ganhei”. Vai continuar assim, porque é isso que a punição faz: domestica, não educa. Estreita a visão, não faz crescer, não faz entender.

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