Mais de uma vez a Juliana me disse: “Peti, por que tu não faz um moicano no teu cabelo? Ia ficar massa!”. Não… Não. Definitivamente não. Sem querer desdenhar da opinião dela, poderia até ficar legal, concordo, mas, não. Sabe, talvez ela me ache meio poser. Talvez ela me ache meio falso. Não estou acusando-a, tampouco ousando penetrar no labirinto que a mente de outra pessoa é para qualquer um; apenas estou levantando uma hipótese natural da nossa história de convivência. Ela me vê todos os dias com pessoas de personalidade, digamos, visual, bem mais marcante do que eu. Qualquer um diria que a Natacha é emo. Muitos diriam que o João é emo - apesar de agora ele estar ridiculamente obcecado pelo bobo e irreal Zac Efron; em ser como ele - e alguns diriam que a Aline é emo. Agora, pouquíssimos, quiçá apenas acéfalos sociais, me chamariam de emo. Entretanto, sou amigo deles, ando com eles, ouço as mesmas músicas que eles e tenho pensamentos filosófico-políticos bem mais ousados do que eles.
Talvez a Juliana espere de mim uma atitude mais condizente com a minha anarquia rebelde. Talvez ela esperasse uma revolução visual; cabelo doido, cabelo verde. Tatuagem, à contra-gosto da mãe. Piercings e etc. Não gosto de patys sem cérebro - mentira, não seria idiota de ser assim, sou discordiano e não caio em armadilhas maniqueístas. Tenho várias amigas assim, e como diria alguém, não me lembro quem, “Paris Hilton deve ter uma visão de vida única no mundo”. Quando você pensa nela como uma vadia rica e burra, você se espanta com isso. Ela é única. Ela é rica e potencialmente a típica “loira burra”, mas o fato é que, participando ou não de um estereótipo, a visão de mundo dela é única.
Agora, por que eu não me torno visualmente mais próximo com a minha ideologia? Medo? Preguiça? Falsidade? Hipocrisia, covardia, falta de identidade, baixa auto-estima e necessidade de afirmação? Não, não. Ok, então, coisas menos pesadas: contradição discordiana? Ow yeahh… Quase. Vou explicar: meu visual serve como uma peneira social.
Porque pense bem: se há um grupo de pessoas bem arrumadinhas e vestidinhas e riquinhas que detestam o “tipo de gente” com o qual eu convivo - mais alternativos do que o normal, menos convencionais do que o normal - essas pessoas não se aproximariam de nós. Toda identificação visual que faça a pessoa se aproximar do ponto de vista ideológico dela serve como um aviso; um nazista se veste como um nazista pra avisar que é um nazista (bom, nesse caso, por outros motivos também, mas deixa quieto). Ele não se vestiria como um socialista, pois isso atrairia para seu entorno socialistas - e não é bem isso que ele quer.
Por outro lado, se gosto tanto de semi-emos, alternativos e doidinhos - adoro todos, pois são muito mais divertidos e geralmente perspicazes - por que não compartilho do mesmo visual, da mesma barreira social que selecionaria minhas companhias e as pessoas que se interessariam por mim? Ah, sim, claro, se eu não fizer isso, poderei “transitar entre dois mundos”. Mas há ainda um caso a se considerar:
Da mesma forma que um rapper se veste como rapper pra que um metaleiro (headbanger, eu conheço a expressão correcta) não “chegue perto”, um rapper não chegaria perto de um headbanger.
O objetivo do meu visual não ser alternativo é justamente selecionar os “alternativos”, “doidinhos” e “semi-emos” que valem a pena dos que não valem. Assim, se existem alguns desses grupos que me julgam pela aparência, é justamente por me julgarem apenas pela aparência que não são dignos de me conhecerem. Só sobram aqueles que dão mais valor às minhas atitudes e ao meu jeito de ser que não está contido apenas no sentido visual dos meus atos e de meus trejeitos.
Por isso não tenho cabelo verde. Pra que vou querer conhecer um punk de cabelo vermelho que eventualmente diga que todos os “filhinhos-de-papai” têm que morrer, por exemplo? Esse (esse, ok?) punk não vale a pena.
Tags: atitude, cultura, estilo, música, Psicologia, visual





Cara, você passou uma idéia muito interessante neste post. Estava lembrando de um desfile de trajes de black-metal numa reportagem de moda no Jornal Hoje que assisti um tempo atrás. Justamente de black-metal.
Agora me remeto a condição de blogueiro. Generalizando, na condição da blogosfera. O que eu acho da blogosfera é isso. Pessoas discutindo coisas e afinidades em comum sem preconceitos sociais como idade, visual, roupa, hierarquia, credo. O interior que é valorizado, o que a pessoa pensa, independente da idade que ele tenha ou o que ele concorda ou não. Aparência física na blogosfera é bobagem.
Como também acho que aparência física na realidade é bobagem. O pessoal é muito preocupado com isso. Tem um amigo meu que disse uma vez que todos deveriam andar pelados na rua. Até que não seria tão ruim não.
Grande abraço e excelente post..
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