Descobri que meu writer’s block não é writer’s block. É só (reparem no só) angústia e/ou inação que vem da indecisão. Só.
Esses dias andei conversando com o Santaum no MSN a respeito do meu estilo de escrita. Sinto que preciso mudar, sinto que preciso me transformar; sinto a urgência da metamorfose. Não é que depois de descobrir o discordianismo passei a escrever melhor; eu sempre gostei de ler E escrever, então me sentia à vontade nesse terreno; apenas ocorre que passei a pôr minhas boas escritas no blog - melhor dizendo, o meu blog passou a ter um propósito depois do discordianismo. Aí sim algum conteúdo que se preste pôde ser colocado nele…
Então. Mas os meus textos, apesar de complexos e questionadores, assemelham-se muito a redações e a textos muito “bonitinhos” - ainda que insira gírias, palavrões e estrangeirismos aqui e acolá. Eu mudei; reconheço essa mudança como um processo inacabado, não como um fato. É como se eu tivesse um bloco de madeira; preciso dar uma forma a esse bloco, qualquer que seja, e por enquanto tenho apenas um formato brusco e não-detalhado. É preciso realizar pequenas e complicadas operações internas e externas no meu ser, digo, me resolver comigo e me resolver com os outros.
Posso não ter mudado muito aos olhos dos que estão comigo há tempos e todos os dias; mas pra mim há alguma diferença e isso de alguma forma que ainda não descobri é importante (mais um detalhe, vou anotar aqui…)
Eu preciso agora de textos que reflitam mais quem eu sou / estou me tornando. Escrevo sério demais; às vezes acho o meu texto ruim porque pretende ser sério, tem estrutura séria, linguagem séria; e mesmo assim fica uma bagunça. Não ruim, ruim. É coisa que todo autor tem com sua obra; tem dúvidas, se sente inseguro. Bom, ainda bem que essa insegurança não me impediu de publicar coisa alguma, nem de reformar as palavras que extraio de mim à força - porque, porra, têm uns textos que são verdadeiros partos, juro. Esses têm valor sentimental muito forte pra mim; meus rebentos, meus acertos e meus erros, minha história. Não podem ser modificados. Tenho tanto ciúme de alguns em especial que acho que, mesmo se eu descobrisse um terrível erro ortográfico, eu não corrigiria.
Uma das modificação do blog, mais estética, vai ser eliminar qualquer alusão ao projeto S-H D nos posts do projeto - como este.
Bom, agora deixem-me contar uma das experiências mais legais da minha vida: o meu momento mais dionisíaco de todos!
Ontem eu fui à formatura do terceirão do meu colégio - prestigiar meus amigos Mimeu, Claiton, Tarcísio, Gaba, Mari, Lucas… Parabéns a todos! - e, ao sairmos, fomos de carona com o pai do João. Sentamos (primeiro, antes da Aline chegar) eu, a Natacha e a Jéssica Mainardi (não, não tem nada a ver com o colunista da Veja), nesta ordem, no banco de trás do Escort. A Jéssica falou que tinha percebido algo na Natacha - bom, digamos, um traço sentimental de sua conduta - e que tinha certeza porque já a conhecia há 12 anos - conhecia-a, pois, mui bien… A Natacha falou, entretanto, que não conhecia a Jéssica tão bem, porque não presta atenção nas pessoas.
Até aí não tive nada a ver com a história. Na hora que ouvi isso, entretanto, uma lâmpada acendeu-se na minha mente. Na verdade minha mente nada teve a ver com isso; lembro-me como se fosse hoje (expressão idiota para algo que aconteceu ontem); eu apoiava a mão direita no banco do motorista, o esquerdo na janela. Olhava para o nada. Disse, então, meio-que-quase-baixinho:
“Sua vida é como um espelho…”
Silêncio.
A Natacha perguntou: “qual, a minha?”
Respondi: “Sim. Pra qualquer lugar que você olha, só vê você mesma”.
A essa frase seguiram-se diversas reações; nenhuma delas premeditada, regulada ou sequer esperada. Bom, talvez algumas, mas não as minhas. A Jéssica disse algo como “aaahhh…”. A Natacha olhou pra trás (ela estava sentada mais na ponta do banco), com os olhos bem abertos, pra exclamar “Ooorra!”. Elas falaram isso ao mesmo tempo. E, na mesma hora em que elas falaram isso - talvez instantes antes, instantes depois - meu coração apertou. Não sei dizer o que houve; não foi aperto. Foi uma sensação esquisita, uma pequena pressão. Não foi física, não foi algo do tipo “heart attack”, disso tenho certeza. Se a nossa cultura colocasse o pé como o lugar onde ficam nossas emoções, tenho quase certeza que sentiria uma pressão no pé. Sei dizer que foi um sentimento sinistro; jamais culpa, não arrependimento; acho que uma sensação trágica de verdade. Talvez a frase não se aplique só a ela, compreende…
Quando senti isso, falei (pouco depois do script delas) “nossa! Doeu falar isso, sabia?”. Acho que a Jéssica riu; a Natacha falou algo como “doeu?”, e eu repeti isso mais uma vez, e ainda emendei com “é triste, mas é a verdade” - eu sei, eu sei, uma frase feita, mas foi um chavão mais ofensivo para uma noite não muito positiva com ela - e dessa vez intencional. Depois disso a Aline entrou no carro e fomos embora.
Vou dizer apenas uma coisa: já ouviram expressões como “melodias ficam por aí, voando…”, ou então “eu fui só um mensageiro dessas palavras”, ou coisas do gênero? Então. Sinceramente, eu sempre achei isso tão idiota. Quando Thom Yorke, do Radiohead, falou que não sabia como a música Street Spirit (Fade Out) foi escrita, e que eles foram “apenas seus mensageiros, seus catalisadores naturais”, eu pensei comigo “puxa, isso é muito bonito, mas tão idiota e tão irreal…”. Mas ainda bem que Éris me deu a chance de poder viver uma sensação maravilhosa como essa, de, por um instante só, simplesmente falar o que vier à mente; sem se preocupar com a exatidão das palavras, muito menos com seu teor. Sem ter sequer consciência do que se diz. Fiquei parado, olhando para o vazio de alguma molécula atmosférica à minha frente (mais uma frase idiota; cientistas, não me corrijam, isso foi só poético, ok? Se não foi, poetas, não me critiquem), e as palavras vieram… Sem nenhuma intenção, sem nenhum modelo, sem nenhuma previsão, sem nenhuma… Sem nada de nada! Foi maravilhoso. Durou apenas uns 5 segundos (uns 10 contando com a experiência toda, até a Aline entrar no carro), mas foi uma das melhores coisas que já vivi.
Ah, e o título da postagem é “Poems” porque, num fim de manhã particularmente inspirador, escrevi poemas para duas amigas maravilhosas, Aline e Ana Maria - na verdade, escrevi primeiro para esta última, que havia me pedido pra escrever um recado de fim de ano - e eu nunca sei o que escrever nisso, não importa o quão importante a pessoa seja pra mim. Ainda bem que estava inspirado!!!
Na verdade, inspirado é muito relativo. Eu não fiz um poema bom; eu só fiz um poema, e uma vez que eu não gosto (odeio) de escrever poemas, o fato de escrever um já mostra que a inspiração é um pré-requisito. Fora esse detalhe, as rimas foram toscas - mas foi o objetivo. Não pra avacalhar com o recado, mas pra deixar um pouco de riso e alegria às grandes pessoas às quais os poemas foram dedicados. Há neste mundo presente mais nobre e mais original que o riso?
Infelizmente, este não conta para nosso mundo tão pobre de espírito, e tão rico de prestações em épocas festivas.
Tags: Blog, blogs, dionisíaco, escrever, escritor, estilo, instinto, sentimento





Grande Rev. Peterson,
Breve comentário: entendo perfeitamente o seu ciúme pelos seus textos, porque são muito bons e foram escritos naqueles “instantes instantâneos” que teve numa determinada fase da sua vida. Eu ocnfesso que tenho um problema, sempre reclamo do passado e muitas vezes esqueço de intensificar (digo, intensificar mesmo) meu instante presente. Isso seria excelente. Cada 5 segundos vale muito, hehehe. Cada instante momentâneo é espetacular. É igual o tempo do gol numa partida de futebol. De fato, Vsa. Exc. sempre estará em permanente mudança e evolução. Quando essa cabala completar 3,1536×10E13 micronésimos de segundo irá refletir bastante e com certeza ficará muito orgulhoso dos seus feitos.
Bicho, você também deu uma grande reviravolta (não apenas volta) no final do texto bicho! Como Vsa. Exc. mesmo comentou, fez neste breve texto uma super ginástica retórica, pelo menos na minha cabeça.
Texto interessante, demasiado interessante.
Grande abraço.
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