Há algum tempo já conhecia uma mulher cristã (novidade hem) que participava das aulas de conversação da safeway. Bom, eu não sabia que ela era cristã, e já não é como antes, onde era “normal” que todos fossem cristãos (pra mim, no caso, quando eu era um). Costumo apenas pensar nas pessoas como pessoas, oras.

Entretanto, na aula de conversação de hoje, o professor de inglês fez a seguinte pergunta: se um asteróide caísse na Terra, e os cientistas soubessem com uma absurda precisão que ele assim o faria e que não há nenhuma esperança, o que você faria com os seus…

… últimos 2 meses de vida?

Não vou ficar discutindo minhas respostas, apenas vou falar algumas coisas curiosas, que apenas confirmam pensamentos há muito formulados por pessoas como Nietzsche (não me vem à mente outras, embora uma esteja na ponta da língua…). Por exemplo:

- A primeira coisa que ela disse foi: “I think the people will fight a lot”.

Ao que eu respondi: “But, if you have in mind that EVERYBODY will die in 2 months, why would I fight? It would be a waste of time!”

Ou seja, em português, ela disse “Eu penso que as pessoas iriam brigar bastante”. Eu falei “Mas, se você pensar que TODO MUNDO vai morrer em 2 meses, por que eu brigaria? Seria perda de tempo!”.

O engraçado é que ela falou outras três coisas similares: “I think people will cheat each other a lot” (Acho que as pessoas vão trair muito umas às outras) e “I think a lot of people will get crazy” (Acho que muita gente vai ficar maluca) e “I think a lot of people will jump from buildings” (Acho que muita gente vai se jogar de edifícios), além do um pouco mais correto (mas nem por isso contraditório, como veremos…) “I think people will rob a lot” (Acho que as pessoas vão roubar muito).

Essa última sentença é claramente contraditória, pois logo veremos que, se você pensar que TODO MUNDO vai morrer em 2 meses, e todos estariam “aproveitando”, digamos assim, a vida, quem restaria pra ser roubado? Novamente, tudo passaria a pertencer a todos - ou a quem pegar primeiro. Na verdade, a todos, pois ninguém ficaria perdendo tempo brigando por posses, a não ser que elas sejam de alguma importância pragmática maior.

Quanta às outras, é in-crí-vel como aquela mulher pensava que os humanos iriam destruir todos que encontrassem pelo caminho. Sabe qual é o maior dos problemas dos escravos mentais desse tipo? Essa bengala que se chama “Deus”. O medo da humanidade é o medo que ela possui de si mesma, disfarçado na figura do “ser humano”. Isso porque, segundo a mitologia cristã e até mesmo sob a concepção dessa pobre mulher, o ser humano é um pecador contínuo, o que nos dias atuais se eleva para o status de um completo demônio.

Explico: pra ela, sem a bengala do senhor de escravos chamado “Deus”, todo mundo perde a humanidade e vira um demônio. O que ela quis dizer com tanto medo da bagunça social? Ela quis dizer que tem medo do que todo mundo possa fazer? Antes fosse. Ela tem medo do que ela possa fazer. Ela tem medo de si mesma, e isso não apenas por falta de reflexão sobre si mesma, suas potencialidades, sentimentos e limites (teocentrismo is back) mas porque foi ensinada que o homem é um diabo se não tiver Deus no coração, e assim ela não consegue mais viver sem ele e sua moralidade. Fraca - é o primeiro adjetivo que me vêm à mente. Não só por não conseguir viver sem Deus, mas também porque se ela só é boa porque teme o castigo divino e almeja o paraíso, então… Diga, Albert Einstein, o que ela é:

“Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível.”

Há outras três características engraçadas. A primeira é que ela simplesmente se recusava a se desfazer de seus hábitos ou de coisas que fossem socialmente reprováveis. Só o que ela dizia era “Ah, eu acho que iria dirigir um caminhão” ou “Acho que iria dirigir uma moto potente” ou então “Ia pular de páraquedas”. Poxa, meu professor mó Rock’n'roll afirmando coisas do tipo “vou sair pelado na rua”, “vou deixar a barba crescer” ou “vou começar a fumar”, e ela ainda presa à própria mente. C’mon, são os últimos 2 meses!

A segunda característica é a constante esperança. Dizem que a esperança é sempre boa; nesse caso (na verdade, em muitos outros) a afirmativa se torna claramente falsa e irrelevante. Ela dizia “Eu acho que os cientistas vão descobrir um jeito de salvar a Terra”, ou então “Eu iria rezar bastante”. Meu professor a interpelou sobre o motivo, ela confirmou que pediria por um milagre.

Pôxa, no que culminaria tal esperança? Perda de tempo! Ela poderia estar aproveitando os últimos momentos de vida, mas nããão, tem que sempre manter a esperança de que o todopoderosão vai dar um help. Ah, faça-me um favor, né?

Perdas de tempo nesse sentido podem fazer muita diferença entre outras situações que não essa.

A desistência de si mesma (ignorância e falta de vontade sobre si mesma) se revela não apenas na desesperança com a qual encara a porção independente e livre da humanidade, mas também no seu idealismo puro. Fora os seus conformismos sociais, grande parte das frases dela eram relacionadas às “pessoas”, em geral. Porra, que pessoas? Ela iniciava a maioria das frases com “The people” ao invés de “Eu…”. O pensar nas pessoas não é o problema, o problema é o foco nos outros. Apenas lembrando pela centésima vez, não se trata de egoísmo ou altruísmo, trata-se de individualismo (antes que falem).

Pessoas, pessoas… Que pessoas? Tal pensamento abstrato mostra-se muito carente de realidade.

O retrato de auto-demonização é também visível em um diálogo dela com o meu professor:

- Mas por que a idéia de morrer é tão terrível?
- Porque é ué!
- Mas não é só você que vai morrer, ou seus amigos ou parentes… É todo mundo!
- Então, justamente por isso! É todo mundo, todo mundo!
- Então! Olha, você é cristã?
- Sou.
- Então, você não acredita em céu?
- Sim.
- Então, vai todo mundo se encontrar lá! Quer dizer… Você é pecadora?
- Bom… (com aquela cara de é, né…) sou…
- Ah, pois é… O céu não está esperando por você então, hehehe…

Uma coisa que me ocorreu enquanto escrevia isso: nos últimos dias de nossas vidas (se houvesse certeza e saúde) gostaríamos de nos libertar de nossas correntes sociais e viver intensamente emoções e experiências. Daí a importância da morte: a libertação da individualidade, da razão, de tudo o que nos prende fora da natureza mágica do emocional.

Fora isso, há algo a mais: se os últimos momentos são feitos de entrega, então aqueles que aceitaram Deus nos últimos momentos se entregaram aos seus sentimentos. Sabe qual é o principal? O MEDO DA MORTE. Portanto, assim como não se espera que as pessoas raciocinem melhor sob pressão emocional, qual é a validade do testemunho de um crente, quando ele diz que “soube de Deus quando viu a morte próxima” ou então “soube de alguém que estava quase morrendo e começou a crer em Deus”?

Eu te digo qual é a validade: nenhuma.

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