Há tempos queria falar sobre uma idéia que tive, mas não conseguia dizer, não conseguia escrever, não conseguia… Enfim, botar no “papel”. Mas agora vai!
Estava vendo a Mtv quando repentinamente começa a tocar a música “Same Mistake”, do James Blunt. O refrão é o seguinte:
I’m not calling for a second chance
I’m screaming at the top of my voice
Give me reason, but don’t give me choice
Cause I’m about to make the same mistake again
Give me reason, but don’t give me choice… Estranho, é uma boa frase, não? Inteligente, capciosa. Mas então me dei conta de que é exatamente isso que tava faltando pra eu fazer esse post.
O que ele quis dizer, sob determinado ponto de vista (e também sob determinada interpretação de seu provável ‘trocadalho’), é que ele vai cometer o mesmo erro novamente, então ele não quer ter escolha. Ele quer ter razão - ainda que razão seja de certa forma uma escolha. Mas é aà que está o pulo do gato: James Blunt é inteligente pra dizer algo como “eu quero escolher não ter escolha”. Para ele, portanto, a razão funciona mais como uma doutrinação arbitrária, talvez um hábito ao qual ele queira se submeter - ele faz uma escolha de prender a si mesmo a uma conduta.
E é aqui mesmo que eu quero chegar. Qual a mensagem do discordianismo? Várias, talvez. “Cada cabeça uma sentença” - essa frase cabe muito bem aqui. Mas de qualquer forma, no PrincÃpia Discórdia, Éris apareceu para Mal-2 e Lord Omar para dizer que eles são livres - Livres porque os humanos se prendem em prisões de medo, e ainda reclamam da falta de liberdade…
Quando James Blunt diz que não quer ter que escolher, é porque a liberdade o levou ou o leva para o erro, mas ao mesmo tempo não se sabe qual é o tal “erro” - de qualquer forma, se ele teve escolha e se decidiu por satisfazer sua vontade, por que isso é um “erro” ou é “errado”? Talvez a moralidade / ética definam uma atitude certa e errada, e Nietzsche está aà pra nos auxiliar a desmascarar a moralidade, oras.
O que eu quero dizer é que, bem, pensemos na ideologia cristã: em poucas palavras, o “livre arbÃtrio” de que tanto falam os cristãos significa ter liberdade pra escolher entre servir a deus e a não servir. Se você não serve, você vai pro inferno (o que caracteriza muito mais uma coação do que um livre arbÃtrio, afinal). Se você serve, deve seguir direitinho a moralidade, os preceitos, as instituições cristãs (ou go to hell, bastard). Mas, por que alguém desistiria da liberdade pra seguir um determinado caminho trilhado e pavimentado?
Simples: porque eles acreditam que não têm capacidade de viver fora desse caminho - ou pelo menos viver independentemente dele, sem se preocupar em necessariamente segui-lo ou evitá-lo. Desde tempos imemoriais o povão é mantido na ignorância porque todas as mitologias favoreciam uma visão que colocava as pessoas como necessitadas, como fracas. E, é claro, sob essa condição de fragilidade, elas acabavam aceitando seguir um determinado caminho, abdicar de sua liberdade, porque achavam que a única liberdade possÃvel era escolher entre seguir ou não o que lhes foi dito por “aqueles que entendem”. Da mesma forma, como diz o meu professor de inglês, os evangélicos, católicos, etc, querem fazer a pessoa pensar que ela não é importante; em linhas gerais, querem com que ela pense que, enfim, “Jesus tem um plano pra ela”, que ela é uma peça no xadrez que Javé joga sozinho. Todos aceitam seguir um caminho sem questionamento porque acreditam que aquilo é necessário.
E isso não é só sobre religião: é sobre todo o sistema, sobre tudo. O sistema de leis baseado na punição, o sistema monetário, o sistema capitalista, of course religiões. Até mesmo o iluminismo: o que ele pretendia fazer é tirar o homem da ignorância e matar Deus, mas deixar a moralidade intacta… Ou seja, o caminho é o mesmo, só que sob proteção da razão, não de nenhuma efetiva coerção. Continua sendo um caminho, continuam pensando que não é possÃvel simplesmente fazer do seu próprio jeito.
O meu tipo de pensamento individualista parte do princÃpio de que, por medo de errar, por medo e por fraqueza, dependência dessas coisas que criamos pra nos proteger de nós mesmos, acabamos mutilando nossa liberdade. Não podemos simplesmente acreditar que podemos nos separar disso? Nos organizar livremente, partir de nossa vontade e conservarmos ainda um mundo minimamente “pacÃfico”? As pessoas olham para esse tipo de proposta desconfiadas, e dizem “Isso aà não vai funcionar, rapaz. Tá doido. Tá maluco”. Mas é claro que não vai funcionar - se as pessoas continuarem a se agarrar desesperadamente à quilo que lhes é necessário agora. Se a fé é um salto, é preciso dar um salto nessa direção. Afinal, ter fé na própria razão e no próprio discernimento é dar poder à própria liberdade. É necessário confiança em si mesmo pra prosseguir por esse caminho, e só assim isso dará certo. Não é apologia à fé que move montanhas ou algo assim - é uma apologia a um pensamento meu, que não é nem meu, é bem simples e compreensÃvel: a fé atua onde não há regras. Se você clicar nesse link gigantesco das últimas frases, você vai ser direcionado pro texto “Salto de Fé e o Mundo Injusto”, que explica o que estou querendo dizer com isso.
Curiosamente, esse post era pra ser uma continuação daquele. Mas eu não conseguia organizar minhas idéias. Muito obrigado, muito obrigado James Blunt.
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Pensaram que iam escapar de mim, né
Revy, parece que ambos pensamos no problema da ‘Moral’.
Se puder, leia lá no blog ‘Qual tua escolha’?
Beijão.