Na primeira aula de matemática I do ano o professor faz um intenso e absolutamente sombrio (próprio de seu jeito de falar) discurso. Fala sobre várias coisas; começa com matemática e termina na faculdade e fala sobre como devemos “nos virar” na faculdade, etc.
Então, quando ele começou a falar que tudo na vida tem a ver com funções, me lembrei na hora do post sobre o solipsismo temático no 1001 Gatos: matemáticos vêem matemática em tudo, afinal, e talvez eles estejam certos. Mas depois, quando fui embora do colégio, no caminho de casa, fiz outra associação: Nietzsche uma vez disse que o princípio dos erros filosóficos estava no fato de que os filósofos preferem confiar nas palavras do que nos sentimentos, instintos, e então se corrompem no caminho da lógica gramatical.
É mais ou menos assim: existe aquela brincadeira que circulava na internet há alguns anos: “Dizem que eu sou ninguém. Dizem que ninguém é perfeito. Logo, eu sou perfeito!”. Isso é um exemplo tosco, mas serve. De forma semelhante, usamos o nosso vocabulário e a nossa estrutura gramatical para expressar nossos pensamentos. Mas e quando não são nossos pensamentos, e sim nossos sentimentos, que queremos expressar? Aí podemos nos confundir com as palavras e acabar transformando um sentimento em um raciocínio pálido e com um significado distinto do original. E aí raciocinamos, concluímos coisas, agimos segundo esse pensamento pálido e nos enganamos, porque confiamos mais na razão do que no instinto.
Se filósofos têm solipsismo temático com palavras, achando que “tudo é filosofia”, e estão enganados, os matemáticos também estão enganados quanto ao seu “tudo é número”, uma vez que a quantificação, tanto de matéria quanto de fatores subjetivos, é puramente arbitrária. Uma valoração pu-ra-men-te arbitrária. Igual às palavras.
Correndo por fora das palavras e dos números, os sentimentos e a compreensão deles pode ser solitária. Existem dois tipos desses “sentimentos” e “Instintos”: os compreendidos e os não-compreendidos. Eu não sei como se compreende um sentimento sem transformá-lo em palavras (o que, como disse, deturpa sua essência), mas eu sei que isso é possível. E, mais do que possível, isso é compartilhável. Afinal, quem já não trocou um olhar significativo com alguém? Um olhar que, em vez de dizer tudo sem dizer nada, definitivamente não diz nada – mas transmite uma sensação, um sentimento, que imediatamente a outra pessoa compreende. Da mesma forma, isso é possível na arte: há músicas de artistas como Kate Nash, Billie The Vision & The Dancers, Hello Saferide, etc, que tem letras muito bonitas. Essas letras despertam em você a sensação de que há uma mensagem por detrás dela – e há. Só que, diferentemente das outras músicas que possuem significados, nessas você compreende em forma de sentimento, e você não consegue traduzir em palavras, de modo algum, esse sentimento de compreensão. Eu chamei a característica que essas músicas possuem de inteligência sueca (em homenagem ao país natal de dois dos artistas citados acima) mas acho o termo insuficiente. Aliás, depois de Be Kind Rewind, o termo ganharia facilmente outro sentido. Portanto, deixo-o sem nome mesmo. Afinal, se é a tradução em palavras que o destrói…
Estive pensando também na crença em Deus e nas “sensações” que algumas pessoas possuem. Não falo de possessões, espíritos ou mesmo de revelações proféticas; falo de qualquer “conexão” que um religioso sinta, e que não tem absolutamente nada a ver com religiões organizadas e etc. Alexandre Soares Silva, um blogueiro que admiro muito, uma vez disse que o ateísmo não era elegante. Afinal, pra que se preocupar em pensar na inexistência de Deus – os termos que ele usou foram mais ou menos: pra que Deus precisa existir ou não? Não é bom o suficiente imaginá-lo? Como muitas de suas opiniões, me deixaram pensando por um bom tempo. Acontece que talvez sua “religiosidade” esteja mais concentrada nesse “sentimento” indizível, algo parecido com uma reverência pela existência, pela natureza, pelo modo como as coisas operam. Essa reverência, uma vez que não mensurável, não é assunto da matemática. Uma vez que não é explicável, foge à racionalidade. Sobra pra ela apenas o terreno das coisas que não se explica, o terreno da fé. Aí é que entra o problema… O “sentimento” acaba subvertendo o que é e o que não é racional; serve como consolo para os medos da pessoa, enche-a de moralidades inúteis, justifica crimes e também castigos, dá esperança (por vezes vã e inútil), fortalece os poderosos, favorece a desigualdade social, econômica, etc etc etc. Os aspectos práticos da religião são o problema, tanto quanto os aspectos práticos da crença em Deus. A crença em Deus é, portanto, um suporte, a única plataforma que consegue ouvir a expressão “eu não consigo explicar”, e aí a cultura e a religião, fazendo exatamente o que não deve ser feito (explicar), explicam o sentimento e o subvertem. Mas ele continua lá. Continua lá e é por isso que a explicação é aceitável. E é por isso que alguns religiosos até com embaraço reconhecem as falhas da religião, mas relevam – por causa desse sentimento.
O mundo precisa urgentemente valorizar mais os sentimentos – não é um retrocesso desvalorizar a razão, é apenas um avanço reconhecer que tanto o medo da morte quanto o impulso pela segurança existem. E existem também sentimentos que não conseguimos explicar, e pronto. É só. Não há nada além disso, e isso já é bonito suficiente. Não é preciso imaginar mais nada. É só sentir.
Tags: instinto, matemática, Racionalidade, razão, religião, sensações, sentimentos, solipsismo temático





Em pleno dia de São Tiby, você escreveu um breve texto sobre quase todos os assuntos, eheheehehe. Muita inspiração, heheheheh…
Sobre matematizar a vida, isso é irrelevante. Gosto de matematizar algumas coisas, alguns conceitos físicos em coisas práticas, e isso é irrelevante, ou não, hhehehehe…
Pensando bem, tudo é irrelevante, falso ou verdadeiro…
Grande abraço…
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