Pra concluir essa idéia: Amor e Amizade são duas palavras que já aglutinaram todos os significados possíveis - e todos eles saturados de tudo o que impede que se veja a verdadeira natureza minimalista de ambos os sentimentos - que são um só. Mas a questão é: qual palavra deve ser utilizada para representar esses dois sentimentos de uma vez só? Amor, erótico demais*, Amizade, inocente demais…
Qual é a solução? CRIE a sua PRÓPRIA palavra. Uma nova, de preferência. Um neologismo, mas um bonito, pelo menos. Pegue uma palavra de outra língua. Misture duas, três. Ou uma combinação nonsense de síbalas. E faça com que isso signifique tudo de único que uma relação de puro sentimento significa. Porque ela significa pra você, e pra mais ninguém. As emoções são suas, as experiências são suas, porque o vocabulário não deveria ser também? Crie sua própria palavra. Crie sua… virtude:
“Irmão, quando possues uma virtude e essa virtude é tua, não a tens em comum com pessoa nenhuma.
A falar verdade, tu queres chamá-la pelo seu nome e acariciá-la; queres puxar-lhe a orelha e divertir-te com ela.
E já vês! Tens agora o seu nome em comum com o povo, e tornaste-te povo e rebanho com a tua virtude!
Farias melhor dizendo: “Coisa inexprimível e sem nome é o que constitui o tormento e a doçura da minha alma, e o que é também a fome das minhas entranhas”.
Seja a tua virtude demasiado alta para a familiaridade de denominações; e se necessitas falar dela não te envergonhes de balbuciar.
Fala e balbucia assim: “Este é o meu bem, o que amo; só assim me agrada inteiramente; só assim é que quero bem!
Não o quero como mandamento de um Deus, nem como uma lei e uma necessidade humana; não há de ser para mim um guia de terras superiores e paraísos.
O que eu amo é uma virtude terrena, que se não relaciona com a sabedoria e o sentir comum.
Este pássaro, porém, construiu o seu ninho em mim; por isso lhe quero e o estreito ao coração. Agora incuba em mim os seus dourados ovos”.
É assim que deves balbuciar e elogiar a tua virtude.
Dantes tinhas paixões e chamava-lhes males. Agora, porém, só tens as tuas virtudes: nasceram das tuas paixões.
Assim falou Zaratustra…

photo credit: ApplePirate | * A questão mais espinhosa da fusão que descobri entre amor e amizade é, é claro, o sexo. Alguns podem dizer “pff, é claro que são coisas diferentes. Amor é movido pelo instinto de procriação. Amizade não!!!” - alguém que considera o sexo um instinto tão decisivo na vida das pessoas não pode simplesmente dizer que logo a amizade, algo tão presente em nossas vidas, não recebe nenhuma influência dele. Talvez sim, a noção de amor e amizade como sentimentos e não como fenômenos sociais regidos pelo gene egoísta parte de um princípio do uso da razão como possibilidade de mudar, de pensar diferente pra sentir diferente. O sexo pra mim seria algo como uma profundidade da relação. Quando esse sentimento, o misto, esse-da-palavra-nova, fica profundo o suficiente, faz-se necessária uma nova forma de demonstrar afeto, carinho, desejo. Aí isso envolve intimidade e tudo o mais…




Zaratustra é do baralho mesmo!!! Louco, profundo e impressionante, as vezes me lembra Fernando Pessoa, algumas passagens mais poéticas, muito bom!
Rev. Peterson Cekemp respondeu:
Louco, profundo e impressionante é uma bela descrição! =D Além disso, Fernando Pessoa… Não tinha pensado nisso antes. Até que parece mesmo…