O Alemão nascido em 1844 (sempre arrumando novos termos =P) dizia que a arte foi criada com o intuito de, hum, como dizer, “expiar” as dores da existência. O povo grego, que entendia melhor do que ninguém, segundo ele, das coisas da vida (tinha até aquela fábula do demônio de Baco e tal), não conseguiria suportar tamanho conhecimento sobre a ridiculidade da vida sem a arte.

Há outras pessoas, no entanto, que defendem o uso da arte muito mais como uma expressão de descontentamento e um constante desafio ao senso comum. A arte serviria, segundo essa visão das coisas, para chocar, para abrir a cabeça à martelada e expandir a consciência, para se revoltar contra o que há de (de acordo com os artistas) errado, seja de forma irônica-humorística, impactante, etc.

Dessa forma há em geral dois lados e é possível identificá-los pensando em alguém que não gosta de filmes brasileiros “porque só mostra favela” (generalização errônea) - crítica social - e em alguém que não goste de músicas que falem de sentimentos justamente porque parece algo “sem sentido”, ou algo inútil diante da realidade social em que vivemos.

Mas, na realidade, não vejo essa dicotomia como muito forte, sequer como existente. Pra mim esses são apenas os dois lados da moeda arte, e ambos precisam existir pra fazer de uma obra de arte uma boa obra de arte.

Pra mim cada trabalho artístico funciona como um portal para outro universo, todo um mundo de conceitos e imagens imaginado pelo artista e transportado para a obra. Uma boa obra de arte tem que fazer duas coisas:

1) Te envolver (e você aí, se deixe ser envolvido!!) na história com elementos que te puxem sutilmente para fora da sua realidade e faça com que você sinta-se literalmente dentro deste outro mundo, deste universo da arte.

2) Uma vez que você está lá dentro, não apenas sujeitar a sua consciência às emoções que a arte desperta, mas também oferecer um desafio para o espectador. Não estou falando de mistérios sobre “quem matou quem”, estou falando sobre um choque, digamos, “cultural”. Se este é um outro mundo, que ele ofereça alguma coisa de diferente em relação ao mundo da pessoa que assiste, pois assim sair da realidade não vai ser apenas um passeio inútil, mas sim uma verdadeira conversa silenciosa consigo mesma, onde a pessoa revê seus conceitos e modifica seu próprio mundo assim que adquirir uma nova visão das coisas - ou fortalecer a sua ao conseguir vencer uma vez mais uma opinião contrária.

Olha, essa é uma opinião que posso oferecer com relativa segurança. Agora, como essas duas coisas se relacionam e etc é uma coisa que, na minha pessoal opinião… É bem pessoal. Existem certos elementos que ajudam a “puxar” a pessoa pro outro universo que funcionam com algumas pessoas, mas não com outras.

Existem obras que lançam óbvios questionamentos mas mesmo assim não conseguem envolver a pessoa, e assim ficam parecendo um tanto quanto sem graça, apesar de serem, claro, muito inteligentes. Por outro lado, existem filmes, livros, músicas que, mesmo sendo bobinhos e fazendo escassos saltos para terras além-senso-comum, fascinam pela qualidade da atuação, das linhas escritas, arranjos / melodias / riffs / solos, de um jeito que nos deixa perguntando “quem anotou a placa do caminhão?” no final…

E a grande questão no que concerne ao papel da arte enquanto crítica é que a crítica não é limitada à crítica social mas se expande de maneira fundamental à crítica pessoal - no que concerne a atitudes, escolhas, gostos, hábitos…

Meu desgosto profundo com a cultura romântica se arrasta pelas novelas e filmez’inhos’ até hoje e justifica-se pelo seguinte: a dessemelhança total com a realidade, tanto em pequenos detalhes de roteiro como no grande esquema das coisas (falta de elementos que me envolvam na história) e os clichês (ou seja, nada que a minha mente já não esteja mais do que acostumada a ver e a pensar sobre).

Outra coisa: poder-se-ia argumentar de que filmes como, hum, sei lá, Tropa de Elite, por se tratarem de lugares que existem e fazerem crítica social não seja bem um “universo paralelo”. Como minha teoria explica isso? Ora, é simples. Você não está experimentando as favelas do Rio de Janeiro, você está experimentando a visão do filme sobre ela. Ora, cada pessoa tem uma visão diferente sobre um lugar, não é mesmo? Você está vendo outra - é um outro mundo…

Esse mundo, essa realidade alternativa está contida no nosso mundo. Ela está dentro do mundo real, fatual, objetivo, físico.

Joseph Campbell em seu “O Poder do Mito” diz que nos mitos uma idéia geral recorrente é a de que há um mundo, algum tipo de realidade anterior à nossa que fica atrás, (como os bastidores de um teatro) da realidade que conseguimos perceber.

Ora, considerar a experiência estética como um produto da nossa experiência biológica é ter uma relação saudável com os mitos e a arte porque assim ela serve como a expressão dos sentimentos para que eles não acabem nos esmagando, estourando de dentro pra fora. Esse mundo paralelo é um modo de lidar com a intensidade de nossas emoções e instintos (visão de ‘Nitchi’ sobre o nascimento da arte). Procurar através de simbolismos alguma lógica neles ou mesmo procurar um conselho para o que fazer em determinada situação (aprender outra idéia, ter uma outra visão das coisas, expandir a consciência…).

Quando você considera que a realidade é na verdade metafísica e que existe esse mundo que dá suporte ao mundo “concreto” - ou seja, quando você inverte a ordem do “A está contido em B” - é porque você deseja que assim seja. Deseja escapar à realidade, deseja viver numa situação em que tudo seja do modo como você quer, distante do que a realidade mostra. É a fuga da realidade.

E por que não poderia ser assim? Bem, é uma questão que atormenta os filósofos desde Platão, mas não é bem atormentadora. Se há uma realidade invisível por detrás desta, como ela é? As pessoas que tem essa idéia fazem desse mundo algo bem variado. Algumas nem pensam nele como uma realidade parecida com a nossa, mas como “alguma coisa” que existe além, como uma ordem moral das coisas, por exemplo.

Entretanto, é nesse mundo que elas vivem e é a essa realidade que elas se sujeitam. Ou você tem um universo inverificável e muito útil para os propósitos da vontade que quer fugir da realidade, ou você tem ainda aqueles que acreditam que existe algo assim mas que isso não faz diferença na realidade objetiva. Mas, se não faz diferença, por que acreditar nisso? Pode ser uma pura experiência estética: apenas um modo de viver a vida com a consciência de que há algo maior, mas se (o que é muito difícil) isso não interferir em nada, voltamos ao ponto de partida: esse mundo acaba contido no nosso, no real.

Supor que esta realidade está contida em outra mesmo quando a evidência de nossa própria experiência mostra o contrário e quando o mundo é, veja só, do jeitinho como queremos que seja é algo que não tem conseqüências tão boas, nem a curto nem a longo prazo.

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